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sábado, 17 de dezembro de 2011

Os caminhos da autonomia


Colocada em xeque pela sociedade contemporânea, a capacidade do professor de analisar e tomar decisões em sala de aula está relacionada com boa formação e profissionalização do ofício docente

Beatriz Rey

Um professor anda a passos apressados rumo à escola em que trabalha. Já perto do local, é surpreendido por uma pedra de gelo, que é jogada por seus alunos de ensino médio da janela do prédio. Quando o docente finalmente chega à sala de aula, encontra um caos. Com os estudantes engajados em colocar fogo num determinado recipiente, o professor explode, coloca os meninos para fora, grita com as meninas e logo se retira. "Fiz a única coisa que jurei nunca fazer: perdi as estribeiras", desabafa com uma funcionária da escola. Na sequência, anda de um lado para o outro, chamando os alunos de "endiabrados" e afirmando já ter tentado de tudo para salvar "aquelas crianças". Quando menciona a palavra "crianças", tem uma epifania: talvez a saída seja inseri-las no mundo dos adultos, pensa. Volta, então, à sala de aula, e imediatamente joga os livros na lata do lixo. "De agora em diante, vocês serão tratados como adultos, com todas as responsabilidades que isso envolve", avisa.

A história é conhecida por muitos educadores brasileiros, já que o professor em questão é Mark Thackeray, interpretado por Sidney Poitier no filme Ao mestre, com carinho. Na cena em que escolhe uma nova estratégia para lidar com os adolescentes - provar que há uma relação direta entre o que ele ensina e o mundo que os cerca -, Mark está sozinho. A decisão foi tomada por ele a partir de seu próprio poder de análise, aliado a seu repertório e experiência. É justamente esta capacidade que, recentemente, vem sendo colocada em xeque no Brasil. No embalo de uma tendência da sociedade contemporânea de cercar o acaso e predeterminar todas as coisas, o mercado editorial tem apostado em livros que trazem uma coletânea de procedimentos para auxiliar o docente a desempenhar suas funções.

Em março, a editora Da Boa Prosa traduziu, com o patrocínio da Fundação Lemann, o título Aula nota 10, do norte-americano Doug Lemov, que traz 49 técnicas "para ser um professor campeão de audiência". Em novembro deste ano, também chegou às livrarias brasileiras a obra O princípio da pirâmide: a lógica, publicada pela editora Canal Aberto e escrita pela também norte-americana Barbara Minto. O livro, que já vendeu 45 mil exemplares em países como Inglaterra, EUA, China, Alemanha, Japão, Noruega e Vietnã, tem o objetivo de mostrar a diversos profissionais (entre eles, o professor) como "se comunicar de forma eficiente".

Ambos os livros desenterram um debate antigo na educação, que foi acentuado com a introdução dos sistemas apostilados nas redes de ensino brasileiras: a autonomia docente. Assim como materiais apostilados, os livros partem da visão de um professor que é incapaz de dar conta de uma aula - a diferença é que as apostilas tratam de conteúdo, e os títulos mencionados, das metodologias e didáticas de ensino. Mas se é verdade que a grande maioria dos professores brasileiros é mal formada e depende de materiais prescritivos para dar boas aulas, é preciso, no mínimo, problematizar essa afirmação.

Em primeiro lugar, entendendo por que há receptividade a esses materiais e em que medida eles dão conta do problema da formação. Em segundo, investigando qual a concepção de educação e de ser humano que eles trazem para a sala de aula. Também é necessário pensar em longo prazo. Se o professor que leciona atualmente não é autônomo, como preparar os futuros docentes para pensarem por si próprios? E, por último, deve-se ter em mente que, mesmo num cenário ideal, o conceito de autonomia envolve o estabelecimento de padrões mínimos para a profissão, tanto no que diz respeito ao currículo quanto ao trabalho docente. Basta lembrar o caso da Finlândia, onde o governo concede autonomia a seus professores, mas há o mínimo de consenso nacional sobre o que um professor deve fazer em sala de aula.
O porquê da receptividade

Uma das pesquisadoras que assinam a contracapa do livro Aula nota 10 é Bernadete Gatti, da Fundação Carlos Chagas. Conhecida por seu trabalho na área de formação docente, Bernadete afirma que o livro de Lemov é "uma contribuição concreta" em um cenário de ausência de literatura sobre didática e práticas de ensino. "Perdemos os conhecimentos concretos de didática, das práticas de ensino, da discussão da atividade em sala de aula, do planejamento do ensino e do planejamento da aula", aponta a pesquisadora. Segundo Bernadete, esses conhecimentos não são tratados nos cursos de pedagogia ou nas licenciaturas. "Perdemos o pé no Brasil. Temos pesquisadores da área de ''''ensino de'''' que têm feito alguma pesquisa didática, mas muito pequena", assinala.

É nesse sentido que Ilona Becskeházy, diretora de qualidade da educação da Fundação Lemann, acredita que o livro de Lemov traz aspectos interessantes para os professores. Como a instituição desenvolve trabalhos nas áreas de formação e gestão, Ilona coleciona bons exemplos de como o planejamento de aula não é bem feito pelos docentes brasileiros. "Vimos professores que usam a ideia do mercadinho durante três dias para ensinar matemática, mas sem um objetivo pedagógico por trás da atividade", conta. Para Ilona, o livro é um "atalho bem assentado" para a realidade brasileira, já que traz elementos solidificados do que se entende por administração da sala de aula. "O Lemov diz: você deve planejar de tal, tal e tal forma", diz. Sobre a possibilidade de que o livro execute um papel similar ao dos livros de autoajuda, Ilona afirma não ter preconceito contra esse tipo de literatura. "Quanto mais explicativo for, mais facilita minha vida", aponta.
 Fonte: Educação Uol
 

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